sábado, 3 de abril de 2010

Quero uma cartola de mágico,
mas que funcione bem,
para enfiar nela meu coração delirante
e retirar uma engrenagem melhor.
Quero esconder na manga, na bolsa,
nessa cartola encantada,
minha alma falida, a asa quebrada,
tanta contradição.
Prefiro um objeto mais útil:
calculadora de emoção, maquininha de escrever,
relógio de sonho preso num lugar.

(Umas peças de metal enfiadas no peito:
só o essencial, para que a cara
não desabe de todo no chão.)

-
Lia Luft -

quarta-feira, 24 de março de 2010

O Balanço

Arregalei os olhos
E a vi pertindo
A sensação foi tão boa
Que fechei e abri devagarinho

Quis beijar, abraçar, namorar
Quis agarrar e roubar só pra mim
Quis descobrir seu cheiro, seu toque, que desespero!
E ela me fitava sem reação alguma

Ô sonho impossível
Doce sonhe sofrido
Ilusão cheia de grito
E o grito cheio de imaginação

Agora só me resta dormir
Confiante de que ela amanhã estará aqui
E talvez eu possa em seus braços ninar

Mas talvez amanhã ela me assombre
Grande e cheia de fome
Me engolindo feito um animal

Não faz mal
Eu adoro esse sonho
Pois tudo fica bisonho
Quando eu durmo no balanço da lua

quarta-feira, 17 de março de 2010

É foda!

Neste Brasil imenso
É difícil ficar só na mão
Não há um ser humano
Que não exploda de tesão

É uma terra danada
Um paraíso perdido
Onde todo mundo fode
Onde todo mundo é fodido

Fodem moscas e mosquitos
Fodem aranha e escorpião
Fodem pulgas e carrapatos
Fodem empregadas com patrão

Os brancos fodem os negros
Com grande consentimento
Os noivos fodem as noivas
Muito antes do casamento

Coronel fode Tenente
General fode Capitão
E o presidente da República
Vive fodendo a nação

Os freis fodem as freiras
O padre fode o sacristão
Até na igreja de crente
O pastor fode o irmão

Todos fodem neste mundo
Num capricho derradeiro
E o danado do dentista
Fode a mulher do padeiro

E assim que nascemos
Alguém vem logo dizer
Que vivemos neste mundo
Somente para foder

E você, meu caro amigo
Que gosta muito de ler
Se não gostou deste poema
Levante e vá se foder!

(Para lembrar de vôvô)

terça-feira, 9 de março de 2010

Onde?

Onde andará...
No bar da esquina
No canto que me alucina
Ou aqui nessa rima?

Será que anda pelo corredor
Naquela poesia de amor
Ou debaixo do meu cobetor?

Nessa noite tão insana
Será que tá debaixo da cama
Ou naquele copo de horror?

Talvez esteja por aí
Voando com um bem-te-vi
E trocando letras de amor

Ou talvez esteja aqui
Aqui dentro de mim
E eu apenas esqueci

Agora faz um frio
E eu só queria saber
Onde anda aquele sonho infantil

domingo, 7 de março de 2010

Sonho Bom

Hoje eu acordei sozinha
Mais sozinha do que nunca
Hoje eu acordei tão vazia
Que não saiu nem choro de culpa

Saí pela cidade
Infinitas cores e flores
Mas aquela alegria vinha tarde
Pra quem só queria deitar

No fundo eu sabia
Só em sonho eu teria
Aquela alegria de amar

Dito e feito
O sonho fez efeito
E na madrugada eu ria sem notar!